taras, tarô e outros vícios

SALVE A DATA! 22.06.16
Casa das Rosas

No próximo dia 22 de junho, o Palavraria, coletivo literário do qual faço parte, vai lançar sua primeira antologia, intitulada Taras, tarô e outros vícios. Dois dos contos baseados nos arquétipos do tarô levam a minha assinatura!

Gostaria de convidá-los para a noite de autógrafos, que acontecerá na Casa das Rosas, em SP.

Venham todos! Venham, venham! Abraços serão bem-vindos!

Noite de autógrafos Palavraria – “Taras, tarô e outros vícios”
Onde: Casa das Rosas
Quando: 22.06.16, a partir das 18h

o raiar vermelho de D’Alembert

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Xilogravura de ARBalsini

Vibração contínua, sensação morna de gema e um leve raiar de olhos, vermelho. Essa memória solar dominante é a conexão que restou com um outro corpo, uma outra vida, que se dissipa quase que intantaneamente. Aqui, acordar tem que ser imediato. As tarefas sedentas de resolução ocupam o tempo da realidade, e também o do sonho. Agir é imperativo. Talvez, por isso, a evolução seja tão lenta. Um planeta para purgar lentamente em ritmo alucinante.

Uma lenda ancestral que se conta para instruir os recém-brotados-da-cabeça diz que este planeta foi criado para receber os párias da espécie, aqueles que se recusavam a se multiplicar racionalmente e a seguir as regras e os preceitos da Luz. Deixados à própria sorte, passado um tempo, os transmigrados foram perdendo o dom do senso, essencial para o caminho, e se imbuíram de instintividade. Retroceder a zero, naturalmente, fez com que quisessem recomeçar e um novo tipo de procriação foi cunhado, perpetuando a condição de purgatório galático. Conta-se essa história assim que o recém-brotado-da-cabeça tem seu primeiro raiar vermelho, com o intuito de deixar claro que a transmigração imposta é uma desonra para si e para os seus. Sem desculpas ou despedidas, o condenado é dado como desfeito.

Quanto maior o tempo de purgatório, mais a mente vai se distanciando da realidade primeva e o novo ser perde a noção original do que é ou do que foi. O que significa dizer que a instintividade se apodera das raízes cerebrais, tomando conta de todo e qualquer senso potencial.

Brotei embaixo de um viaduto, revitalizando uma matéria fragilizada, que aos poucos ia ficando oca, desconectada da Luz pelo umbigo. Nos primeiros momentos aqui, convertia o tempo purgador para a realidade do Tempo-Luz, com o intuito de lembrar de não esquecer. Foi a força do corpo que me tirou do estágio de catatonia transmigratória. Nasci da fome que consumia vorazmente cada centímetro de senso. Aos poucos, foram restando apenas fiapos desconectados de memória e uma sensação morna ao acordar. Acabei ganhando mundo.

Quando já estava na fase de lembrar da Luz apenas em sonho, tive a mente invadida por um vermelho intenso que determinou rumo certo e conduta. Nem sei se tudo que me contaram é verdade, não sei se quero voltar, mas não tenho escolha.

Os da minha suposta espécie de origem detectaram sinais de uso do método de transmigração aqui neste edifício, potencializados pela proximidade de água corrente, e querem descobrir o responsável pela conexão. Ouvi que buscam o sinal há cento e quarenta anos, quando o detectaram em grande intensidade pela primeira vez, em Katmandu. Parece que, na ocasião, o condutor foi bastante artimanhoso e conseguiu dissipar o fogo-fátuo.

Há cerca de dez anos, o sinal foi detectado de novo na Europa, mas a baixa frequência encobriu o paradeiro do condutor. Ao que tudo indica, a mágica do ocultamento só não funciona quando existe fluxo d’água, o que parece não ser do conhecimento do condutor, que repetiu o feito em alto padrão vibracional, em noite de lua cheia.

Minha absolvição depende da descoberta da identidade e do paradeiro do portador da Luz, antes que ele dê um jeito de desaparecer novamente. Mas minha real motivação é descobrir se um de nós desenvolveu uma nova maneira de viver consciente no purgatório. Também tenho a intenção de aproveitar o melhor dos dois mundos.

março 2016. © Pnina Bal

*conto publicado na antologia “Contos e causos do Pinheirão”, do coletivo Armário do Mário – Ocupação Literária, da Casa Mário de Andrade.

 

não achados e perdidos

Essa noite, devo ter sonhado com ela. Sei disso, porque acordei com a visão de seu rosto de Monalisa, estampado com um ponto de interrogação. Como naqueles jogos de criança, em que você precisa descobrir o personagem do seu adversário e ele o seu. “Cara a cara! É mulher? Tem uns cinquenta anos?”. “Sim”. Abaixo todos os homens e mocinhas do meu tabuleiro e sigo confusa com as incógnitas femininas de meia-idade.

No Facebook, ela continua me oferecendo sua amizade sem outras ligações. Luísa. Morena, cinquentona, cara de esnobe. “Aceita a solicitação?”. Status: pendente por falta de memória.

Via de regra, é muito comum que eu não consiga lembrar nomes. Costumo até passar vergonha por isso. Quando alguém novo chega a uma roda de conversa e sou seu único elo, entro em pânico. Para começar, o óbvio, visão limitada e cenho franzido. As mãos não encontram porto seguro e a mente encalha de vez. Aí, esqueço não só o nome do recém-chegado como também os de todos os presentes. Em segundos, as pessoas passam de ansiosas a estarrecidas e, é nessa hora, que esqueço, inclusive, o meu próprio nome.

Mas, no Facebook, ela tem nome determinado e foto de perfil. Como um gif animado apenas na minha cachola, seu rosto se move vagarosamente, suas mãos cruzam o ar com gestos clássicos e sua boca sorri sem quase se mexer.

Percorro o Rio de Janeiro de minha última viagem atrás do rosto falante. Embarco no avião de ida e não a encontro entre a tripulação. Vou almoçar com minha irmã, no árabe do Largo do Machado, e ela não está se digladiando por esfihas e kaftas, tradicionalmente disputados a tapa. Refaço o caminho até o Museu do Amanhã com meu filho e minha mãe, me assusto com a fila quilométrica, mas não encontro a figura misteriosa no passado, no presente ou no futuro da humanidade. Seguimos para o MAR, onde vasculho pinturas e esculturas atrás de um único rosto. Nada.

De volta à vida real, já com a imagem amarelecida catalogada no setor da memória de não achados e perdidos, sento no canto da sala de reunião da escola de meu filho. Cabeça baixa em busca do botão de silenciar do telefone, escuto uma voz macia falar sobre o projeto de Artes do semestre. “Daremos início à criação de autorretratos para um Facebook imaginário. Alguma mãe tem alguma pergunta?”. Boca seca e mão suada, levanto os olhos e digo “Luísa?”.

março 2016. © Pnina Bal

contos e causos do pinheirão

 

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O lançamento da antologia “Contos e causos do Pinheirão” já está próximo!

SÁBADO, 12 DE MARÇO, A PARTIR DAS 14H, NA CASA DE MÁRIO DE ANDRADE, SP.

Enquanto o sábado não chega, aproveite para ler outros contos (esses não entraram no livro) sobre o Pinheirão no blog do Coletivo Armário do Mário – Ocupação Literária.
Boa viagem!

 

Conversas de passarinhos

Crédito: ARBalsini.

Crédito: ARBalsini.

Praga, março de 1913

Meu caro amigo,

A última frase de sua carta ainda ressoa em meus ouvidos: “uma gaiola saiu à procura de um pássaro”. Acredita mesmo que o Homem está fadado a uma existência marcada por conflito e culpa? Que maçada! Há tanta vida a viver! No coração do Homem, se é bem verdade que existe angústia e pesar, também há espaço para esperança, prazeres e alegrias! O dia em que lhe conheci na casa de Max, por exemplo, foi uma data memorável – nosso amigo festejava uma promoção que lhe abriria as portas para a felicidade conjugal.

Insisto em lhe fazer considerar a opção pela felicidade. Insisto também que tudo é matéria de literatura – como poderá versar sobre felicidade, ou mesmo sobre amor, se é fato que os repele? O que seria esta gaiola de que tanto fala que não a própria ideia de uma literatura que rejeita a vida social? Prefere, mesmo, o mundo imaginário ao convívio com os amigos?

Mas não quero te aborrecer. Se bem te conheço, sei que se continuar neste caminho, você não responderá minha carta tão cedo. Então, vamos mudar de assunto, pelo menos um pouquinho…

Estive em Viena há pouco e conheci o Sr. Freud. Um judeu tão admirável de perto quanto pelas manchetes dos jornais. Para mim, que tenho acompanhado o trabalho do Sr. Freud com as jovens vienenses, foi um verdadeiro deleite encontrá-lo na companhia do suíço, Carl Gustav Jung – por acaso, já ouviu falar deste senhor? –, em um dos badalados cafés desta cidade. Você teria adorado conhecê-los, disso tenho certeza. Acho que gostaria, particularmente, de ouvir o Sr. Freud falar de sua análise sobre sonhos e contos de fadas e veria alguma utilidade em entender melhor como o inconsciente é capaz de desordenar a vida de uma pessoa.

Espero não ter sido indiscreto, mas, pensando no bem-estar do amigo, comentei com o Sr. Freud sobre seu caso de obsessão literária, que chega a impedi-lo de manter relações amorosas – mesmo as mais íntimas, como bem sabemos. Mas fique tranquilo, se cometi essa indiscrição foi por sentir confiança no afamado doutor e por ver aí uma esperança de cura para as suas dores da alma, caro amigo.

Por fim, levante-se desta escrivaninha! Vá tomar a fresca e se permita observar a vida dos pássaros livres do parque!

Seu sempre amigo Zygmunt

***

Praga, maio de 1913

Caro amigo,

Peço desculpas pela demora, mas você sabe o quanto me é aborrecido escrever qualquer coisa que não literatura, não sabe?! Fico rondando a escrivaninha de meu pequeno quarto, retomando a ideia da carta, e me sinto asfixiar; recordo as tarefas por resolver no escritório e a cabeça lateja; penso no bilhete que deixei de escrever à mamãe confirmando o almoço de domingo, a garganta resseca; me alcança a avalanche de recriminações de papai e soluços ocos se formam em meu peito; então, retorno ao doloroso término de compromisso com Felice e sou acometido de uma turbulenta crise de tosse.

Para além deste ciclo vicioso em que me encontro, confesso, também, que precisei de tempo para digerir suas palavras. Não me agrada ter minha vida íntima devassada por toda Viena.

Que o Sr. Freud é um afamado médico de nosso tempo, é bem verdade, mas é preciso considerar que as coisas da alma, ainda mais quando da alma alheia, precisam de confiança para virem à tona. Entendo sua preocupação como amigo de longa data. No entanto, peço que não torne a tratar de minha vida em situações futuras, mesmo que para o meu bem, caro amigo.

Sobre seus questionamentos, não vejo nenhuma possibilidade de redenção. A consciência de minha única vocação, a literatura, como gaiola e liberdade, é matéria de angústia que corrói meus nervos diariamente. Neste ritmo, não sei até quando conseguirei manter-me de pé…

Sim, em uma coisa o amigo está certo: a vida é notória matéria para literatura. Em meio ao pesadelo de meu desencontro com Felice, consegui juntar forças e escrevi para não enlouquecer. Cada vez mais tenho a certeza de que meu destino é me retirar da vida em sociedade para habitar uma cova vasta, na qual poderei me recolher para, apenas, escrever. Estou preso à literatura…

A propósito, você recebeu o manuscrito que acabei de terminar? Também enviei o texto a Max e aguardo considerações. Ao menos isso me traz algum conforto…

Sinceramente,

Seu amigo Kafka.

***

Viena, julho de 1913

Meu amigo feigel*,

Sou obrigado a lhe escrever palavras duras e desagradáveis, mesmo em meio a toda a felicidade reinante nesta cidade.

Fiquei muito mal impressionado com seu manuscrito! Não deve nuncapublicar tal disparate. Prometa-me que não infligirá a outros, frágeis de cabeça e de sentidos, as tuas próprias questões obsessivas. Não exponha a si e aos seus, meu caro, publicando tais tormentas. Se o fizer, de certo, será taxado como o grande louco de nosso século!

Largue logo este cárcere que chama de trabalho, antes que o que te sobra de saúde vá embora. Honestamente, penso que também deveria deixar o cubículo lúgubre em que vive. Tanto tempo enclausurado em um ambiente sombrio e cheio de mofo só pode resultar em desvario! Permita-me procurar o Sr. Freud em seu nome para uma consulta discreta e rápida. Aposto que conversar com um especialista lhe faria muito bem!

Ou considere meu velho convite e venha comigo para a Palestina, onde a sombra de seu pai se resumirá à soma enviada todo mês para a sua despesa. O ar puro, as curiosidades de um mundo novo e a vida em comunidade, de certo, lhe farão bem!

Aguardo sua resposta.

PS: Parto em 15 dias, em um navio que sairá de Viena. Me avise se mudar de ideia e providenciarei os bilhetes. Quase esqueço de mencionar que também estará neste comboio uma jovem atriz, que você vai adorar conhecer, garanto!

Forte abraço,

Seu Z.

***

 

Viena, julho de 1913

Caríssimo,

A viagem está próxima e ainda não me respondeu. Insisto que faça a mala e venha comigo. Deixe para trás qualquer assunto que lhe esteja atormentando e se permita viver como qualquer outra pessoa!

Ainda não conta 30 anos e vive metido com as teorias insalubres de Kiekergaard. Isso, de certo, não é boa influência. Escute o que digo!

O pior já foi e ainda lhe resta a vida. As gaiolas não passam de invenções de homens menores. Não se deixe escravizar por algo que não existe. Antes disso, vamos percorrer Jerusalém e mergulhar com algumas garotas no Mar Vermelho. A Palestina, meu caro! Na Terra Santa não há como não renovar as energias e, quiçá, escrever bem! Um SIM e tudo fluirá!

PS: Recomendo-lhe que traga na mala um calção e um tomo de Balzac. Isso, sim, é literatura!

Seu amigo Z.

***

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julho 2015. © Pnina Bal

Aura de bêbado não tem dono

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O primeiro businnes center 24 horas do país foi inaugurado em São Paulo, no último ano do século 20, contra todas as predições do bug do milênio. Uma verdadeira evolução. Ambiente climatizado, elevadores rapidíssimos, a melhor internet discada, cheiro de café permanente, muitas salas de reunião, máquinas de petiscos e refrigerantes e, o melhor, acesso apenas para carros. Empresas de todo o país disputavam a tapa um escritório no Golden Tower Pinheiros Plaza, lançando mão de todos os artifícios possíveis para ter seu nome estampado no grande hall do edifício.

Nos primeiros cinco anos, o Golden fervilhava de engravatados, saltos altos, motoboys, visitantes ilustres e toda uma fauna corporativa. Tempos depois da grande crise e o Gerente ainda se emociona quando escuta os lampejos de qualquer briga pela ocupação de um ambiente. Se vários telefones tocam ao mesmo tempo, então, é chororô certo. Ele, que começou como um simples analista pleno, galgou rapidamente, com a ajuda de um caro e garantido MBA, o posto de Gerente na empresa de exploração de minérios. Tinha grandes metas traçadas em sessões com um personal coach, responsável por um plano meticuloso para a escalada do 20º ao 45º andar, sede da mineradora. Era o primeiro a chegar e o último a sair, sempre, e não tolerava nenhum colega que, por ventura, resolvesse ir embora no horário acordado em contrato. “Já vai? Pode deixar que se alguém perguntar, aviso que você precisou sair mais cedo”, dizia.

Até 2008, ele era um gerente como qualquer outro, com sua rotina de delegar trabalhos, se enfiar em reuniões intermináveis, tomar mais café do que seu estômago suportaria e se pavonear de não ter vida própria.  Até 2008 porque a crise também alcançou os 45 andares do Golden, colocando abaixo negócios, ambições, empáfias, rendas familiares e corações saudáveis. O do Gerente explodiu, vítima de hora extra e fast food, no dia em que o complexo sistema de elevadores parou de funcionar por falta de manutenção.

Anos depois, essa história virou uma lenda no Pinheirão, apelido carinhoso dado pelos novos ocupantes do prédio, e não havia sujeito macho o suficiente disposto a vencer a aposta de subir até o 20º andar. Quando um moleque tava pegando fogo tinha sempre alguém pra lembrar que “O Gerente” pegava criancinha que não obedecia. Por isso, e também pela falta de elevadores, o Pinheirão só tinha morador vivo até o 19º.

No térreo, o antigo paisagismo assinado deu lugar ao Centro de Umbanda Casa de Oxumaré, comandado pelo Pai Dedé de Oxumaré, um anão de origem irlandesa que aportou no Pinheirão com seus gatos e balangandãs, instituindo o sábado como dia de gira. Em pouco tempo, a Casa ficou cheia de gente vinda de toda a parte na esperança de reaver o amor em 7 dias, de tirar olho gordo de vizinho, de ganhar na loteria e até de ver a Portuguesa na série A.

Naquele primeiro sábado de gira, o Pilha acordou, como sempre, virado na cachaça, emborcado na escadaria do Pinheirão. Ainda sem abrir o olho, o bebum oficial do prédio tateou em busca do fiel companheiro, um radinho que já não funcionava há anos, mas que ele jurava que dava o noticiário, com direito à previsão do tempo e tudo. Sem sucesso, abriu os olhos e deu de cara com a molecada zoando horrores e registrando seu desepero com o celular. Protagonista da brincadeira da batata-quente, o radinho passou de mão em mão, subindo andar por andar até o 20º. Quando os moleques gritaram “queimou”, o felizardo se pelando de medo, mas sem coragem de enfrentar a zoação dos outros, se esgueirou pela escada e empurrou o radinho o mais rápido que pôde goela adentro do escritório abandonado.

O Pilha venceu os lances de escada de gatinhas para resgatar seu amigo. Mas, se dizem por aí que cu de bêbado não tem dono, o mesmo pode-se dizer da aura. O homem colocou o radinho no bolso, se empertigou e desceu as escadas reclamando com os meninos das condições em que o prédio se encontrava. “Quanta incompetência! Não acredito que ainda não consertaram esse elevador. Mas eu vou dar um jeito nisso! Preciso chegar ao 45º!”.

Nem é preciso dizer que às vezes o instinto diz muito mais que a razão. Olhos arregalados e pelos eriçados, os meninos começaram a se benzer loucamente antes de ganhar coragem para dar no pé. Como se nada tivesse acontecido, o Pilha chegou ao hall do prédio exigindo falar “com o responsável por essa grande balbúrdia!”. Chamaram a Sol, subsíndica do condomínio, para resolver o pepino. “Mas além de preta é manca?! Veja bem, isso aqui já foi um lugar de prestígio!”, estrilou.

A Sol, que há algum tempo só frequentava o Santo Daime, tinha quilometragem rodada em terreiro de umbanda, conhecia muito bem o Pilha e sacou logo do que se tratava. Com a desculpa de levar o figurão até alguém “mais a sua altura”, fez o bêbado entrar no Centro do Pai Dedé.

Mal sentiu o cheiro do defumo e o homem começou a se retorcer. Com o charuto em uma mão e uma vela acesa na outra, o anão ordenou que o Pilha entrasse num ponto traçado com pemba no chão e rodeado de velas metade brancas metade vermelhas. “Quem é você? Esse homem te deve alguma coisa?”. Imprecações, rezas e pontos se sucediam ritmados pelo ogan da Casa. Em espasmos convulsivos, o homem gritou para parar aquela barafunda. “Sou só um profissional querendo evoluir! Parem com isso!”. “E o que você quer para deixar o cavalo em paz?”. “Que cavalo? Eu só quero saber se fui promovido ao 45º!”. Uma gargalhada vertiginosa tomou conta do anão. Depois de zombar bastante da pequenez do homem, o Esquerda que comandava a sessão mandou que fossem ao 20º andar procurar o tal documento de promoção.

Encontraram o passaporte para o 45º numa gaveta empoeirada, arrastada por alguns noias para um canto da antiga copinha. Ao ouvir a notícia, o agora Supervisor de Áreas de Extração de Minérios chorou como criança sentada sobre os joelhos. Uma surra de folhas fez com que se engalanasse de novo e se retirasse de nariz em riste.

O Pilha voltou de seja lá qual for o lugar para onde foi, perguntou pelo radinho e pediu para dar um gole da marafa do Esquerda. “Esse aí já tá bom! Vai, homem, escafeda da minha frente!”, vociferou o Exu entre irritado e zombeteiro.

Depois desse imbróglio, os moradores resolveram fechar de vez o 20º, sabe-se lá se por conveniência ou por temor. Certo mesmo é que o Pilha continuou sua maratona de cachaça e de conversas com o radinho, e, dizem, adquiriu uma estranha mania de olhar para o último andar do arranha-céu com um sorriso perdido nos lábios.

***

outubro 2015. © Pnina Bal

*conto escrito por Pnina Bal como parte de um projeto de universo ficcional compartilhado,  do coletivo Armário do Mário – Ocupação Literária, da Casa Mário de Andrade.